No princípio da década de 80 do século passado, o petróleo estava a cerca de 10 dólares o barril. Mesmo com a actual recessão o petróleo está cerca de quatro vezes mais caro e já se transaccionou perto dos 150 dólares. Por muito que nos custe, e se não se verificar uma mudança tecnológica que altere significativamente a situação actual, o tempo da energia barata chegou ao fim. Em 150 anos consumimos metade das reservas de petróleo e a outra metade está menos acessível e é de pior qualidade. Se mantivéssemos o ritmo de crescimento do consumo teríamos petróleo para cerca de mais 30 anos. Claro que existem outras formas de energia, mas ou contribuem pouco para as necessidades actuais e futuras e/ou a sua utilização é mais cara.
A tomada de consciência desta realidade levou os responsáveis pelas políticas energéticas a tentar implementar uma serie de medidas tendentes a utilizar mais eficiente¬mente os recursos disponíveis.
A iluminação, assunto que nos ocupa neste artigo, é responsável por cerca de 20% do consumo de energia eléctrica e este valor aumenta substancialmente quando nos referimos ao sector terciário, chegando a representar mais de 50% do consumo de um edifício. Mas enquanto noutras áreas já se realizaram muitos melhoramentos no sentido de criar sistemas mais eficientes, na iluminação ainda há bem pouco tempo a lâmpada incandescente (só 5% do seu consumo é utilizado para obter luz) era a mais vendida em todo o mundo – em 2003 venderam-se cerca de 13 mil milhões de lâmpadas incandescentes (cerca de 72% de todas as lâmpadas vendidas).
Neste momento está em curso uma medida para eliminar progressivamente o uso de lâmpadas incandescentes na iluminação geral. Mas existem muitas outras medidas a implementar, que neste artigo nos escu¬samos de enumerar por não ser esse o seu objectivo principal. Acresce o facto de que a iluminação, além de constituir uma carga importante, contribui para aumentar a carga térmica de um edifício e portanto a obrigar o sistema de refrigeração a funcionar mais tempo e com mais intensidade.
A Agência Internacional de Energia está a desenvolver uma serie de medidas tendentes a tornar os edifícios mais eficientes. É assim que surge
- ECBCS – Energy Conservation in Buildin¬gs and Community Systems
E no que respeita à iluminação
- Annex 45 – Destinado a implementer a “Energy-Efficient Future Electric Lighting for Buildings“
No que concerne à legislação europeia aque¬las orientações tomam forma através de
- Directive 2002/91/EC
- EPBD – European Energy Performance Building Directive
- CEN/TC 169 Light and lighting
Muita legislação foi produzida neste âmbito. Neste artigo interessa-nos especialmente a EN 15 193 que introduzindo o LENI – Light Energy Numeric Indicator – permite determinar e comparar com as melhores práticas a energia consumida por um edifício ao utilizar iluminação artificial.
Em Portugal a legislação é essencialmente concentrada nos DL 78, 79, 80/2006 que englobam a certificação dos edifícios, os seus elementos passivos (comportamento térmico) e os activos (sistemas energéticos). Infelizmente a legislação não inclui todas as recomendações da norma supracitada, limitando-se a definir os perfis de consu¬mo de cada local. Em particular não tem em atenção as condições de exploração – aproveitamento de luz do dia, existência de sistemas de controlo etc..- nem define quais os valores referência.
No entanto se a nossa legislação ainda é incompleta no domínio da iluminação, que como vimos tem um contributo muito gran¬de para a ineficiência energética dos edifícios, não nos restam dúvidas que num futuro mais ou menos próximo ela vai ocupar uma parte importante das nossas preocupações. Quanto mais não seja porque para melhorar a eficiência energética e as consequentes classificações dos edifícios temos de nos socorrer das parcelas que mais podem con¬tribuir para isso. E aqui a iluminação vai ter seguramente um papel preponderante pelas razões que já apontamos.
Se não duvido que em breve a eficiência energética na iluminação vai estar no centro das nossas preocupações, temo que como em outros casos a moda pressione no sentido que se passe de um extremo a outro. Provavelmente podemos assistir a uma preocupação quase fundamentalista na eficiência, relegando para segundo plano aspectos relacionados com o conforto, aumento de produtividade e saúde dos uti¬lizadores, etc…
Creio que existe razão para estar preocupado. A História, perdoem o pretensiosismo de utilizar a palavra com maiúscula para o tema em causa, está repleta de casos em que quando se liberta o pêndulo ele passa rapidamente para o outro extremo demorando longo tempo a encontrar o ponto de equilíbrio – a utilização indiscriminada da baixa luminância é um exemplo recente desta realidade. E neste cuidado não estou, felizmente, sozinho. Os responsáveis pelo anexo 45 a que acima me refiro, há já algum tempo detectaram esta tendência. Em iluminação, como em outros assuntos, outros países levam-nos vantagem. Por isso enquanto que em Portugal ainda não incorporamos na legislação os aspectos relacionados com a eficiência, noutros locais já se começou a tentar conciliar essa eficiência – quantidade – com a qualidade da utilização.
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